InterconectividadeMúsica

Residência artística: ação inovadora em cultura

Biofolio Interconectividade - Felipe José - Residência artística
Compartilhe para que mais pessoas leiam também.

Multicultural: o músico Felipe José fala sobre residência artística e improvisação musical.

Tendo realizado residência artística em várias partes do país e no exterior, Felipe José é bacharel em composição e mestre em improvisação coletiva pela UFMG, multi-instrumentista e músico desde os 11 anos. Já se apresentou em várias partes do Brasil e em diversos países da América do Sul e do Norte, Europa e Ásia.

É fundador do Coletivo Distante, grupo dedicado à prática de improvisação livre, e diretor/idealizador do projeto Cine no Muro em parceria com o Forno Harmônico.

Recebeu importantes premiações, como o Prêmio BDMG Instrumental (2008) e o Youth International Chamber Music Festival (San Francisco – California 2008), e lançou seu primeiro disco em 2013, “CIRCVLAR MVSICA”.

Para Felipe, o uso de técnicas improvisatórias surgiu como algo natural, extensão de uma rede de atividades em constante evolução. Para o multi-instrumentista, a ampliação do seu processo criativo resultou na escolha da improvisação como um dos focos do seu trabalho:

O uso da improvisação (coletiva e individual) é algo relativamente recente no meu trabalho, mas que já define muito do meu processo criativo, tanto na performance quanto no aspecto composicional. Graças ao contato mais aprofundado que tive com algumas práticas improvisatórias durante meu mestrado (terminado em 2013), alarguei bastante meu horizonte criativo.

A improvisação pra mim hoje é como uma das pontas dessa linha musical criativa, que vai até a composição do outro lado. Em outras palavras, acho que composição e improvisação estão andando de mãos dadas na minha prática musical mais recente (de uns 5 anos pra cá).

Felipe José: Solo Multiplo. Foto: Sara Pozzato

Projeto Solo Múltiplo, com o qual Felipe José se apresentou em diversos palcos e escolas públicas de BH em 2016. Foto: Sara Pozzato.


Observatório astronômico Jantar Mantar, construído no séc. XVII em Jaipur, hoje capital do Rajastão. Foto: Sara Pozzato.

Observatório astronômico Jantar Mantar, construído no séc. XVII em Jaipur, hoje capital do Rajastão. Um dos lugares mais inspiradores já visitados por Felipe José. Foto: Sara Pozzato.


Expandindo horizontes

Felipe conta que sua primeira residência artística foi ainda em 2010, em um programa do Ministério da Cultura, quando teve oportunidade de estar em contato direto com projetos direcionados à valorização de linguagem regional tipicamente brasileira.

Minha primeira residência artística foi em 2010, quando passei 2 meses em Canudos/Bahia, realizando um trabalho pelo Programa “Interações Estéticas em Pontos de Cultura”, do MinC. Foi uma experiência e tanto, no coração do Brasil, oferecendo oficinas de musicalização às crianças e adolescentes locais, e fazendo aulas com mestres de cultura locais, aprendendo a construir instrumentos e a tocá-los dentro da sua própria linguagem regional.

Essa residência me marcou profundamente, abrindo pra mim esse novo mundo de possibilidades no qual o artista pode ‘residir’ num determinado ‘espaço/localidade’, e a partir dessa (con)vivência gerar novos trabalhos, desde a troca mútua de aprendizados até a elaboração de novos repertórios, pesquisa, documentação, etc.

Jazzinho #7 - Projeto "Hermeto Pascoal para Crianças de Todas as Idades", de outubro de 2016, no Circuito Cultural Praça da Liberdade. Foto: Flávio Charchar.

Jazzinho #7 – Projeto “Hermeto Pascoal para Crianças de Todas as Idades”, de outubro de 2016, no Circuito Cultural Praça da Liberdade. Foto: Flávio Charchar.


Após essa primeira experiência, Felipe José realizou outras importantes incursões no cenário artístico, através de atividades em projetos de residência. Tendo visitado países como Butão, França e Estados Unidos, o artista enumera algumas residências que foram marcantes:

  • Belo Horizonte (no Centro Cultural da UFMG, em 2012/2013), uma residência que durou um ano e meio e que resultou no nascimento do Coletivo Distante, um grupo dedicado à prática de livre improvisação em BH;
  • Butão (Karma Drubdey Nunnery Monastery – Trongsa, 2012), onde um grupo de 4 brasileiros gravou um disco com música budista criada por monjas de linhagem tibetana. O disco foi lançado somente no Butão;
  • França (4Ecluses – Dunkerque, 2015), onde gravamos um disco fruto da parceria entre o compositor mineiro Gustavito e Delbi, do norte da França. O disco está pronto e deve ser lançado no Brasil e na França em 2017;
  • Terra Una (Serra da Mantiqueira, MG, 2016), uma residência muito especial, na qual gravei paisagens sonoras, composições e improvisações que estarão no meu próximo disco, Terra Una Suite;
  • Programa OneBeat (Estados Unidos), onde tivemos, além da residência no Atlantic Center for the Arts, também uma turnê por New Orleans, Chattanooga e Chicago. Este é um programa do governo norte-americano, que reúne todos os anos mais de vinte músicos do mundo todo, para juntos criarem música e projetos de impacto social. É um projeto lindo de se ver!

As portas de OneBeat

O programa OneBeat sem dúvida proporcionou ao multi-instrumentista uma nova visão em seu repertório profissional, pelas novas oportunidades que surgiram e se concretizaram em diversos projetos de impacto social, como relata:

Acho que a residência mais completa e interessante que realizei até hoje foi participar do OneBeat, um programa muito bonito que acontece desde 2011, a cada ano em um local diferente dos EUA, tudo custeado pelo U.S. Department of State.

Em 2016, ano em que fui selecionado junto a outros 24 músicos de diversos países (Brasil, Russia, India, Zimbabwe, Tunísia, Ghana, Argélia, Bielorússia, EUA, Cuba, Colômbia, Indonésia, Taiwan, Kyrgistão, África do Sul), a residência aconteceu no Atlantic Center for the Arts, na Flórida. Durante duas semanas nas quais nos conhecemos, criamos em conjunto músicas e propostas de workshop e projetos de impacto social.

Após esse tempo em residência, tivemos mais 3 semanas em turnê, realizando shows, oficinas e workshops em Orlando/Flórida, New Orleans/Louisiana, Chattanooga/Tenesse e Chicago/Illinois. Nem preciso dizer que voltei pra casa cheio de idéias musicais e amigos do mundo inteiro!

Residência artística OneBeat 2016. Atlantic Center for the Arts, em New Smyrna Beach, Florida, Estados Unidos. Foto: Alexia Webster.

OneBeat 2016. Atlantic Center for the Arts, em New Smyrna Beach, Florida, Estados Unidos. Foto: Alexia Webster.


Dificuldades e viabilidade de projetos de residência artística

Existem inúmeras maneiras de se realizar uma residência. Pode ser tão simples quanto convidar alguém pra passar uns dias na tua cidade, fotografando, cozinhando, criando algo novo ou mesmo apenas passando uns dias! A principal dificuldade ainda é a ignorância e o desinteresse, infelizmente.


Um potencial inexplorado

Felipe acredita que o intercâmbio artístico é algo que poderia ser mais explorado pela iniciativa pública ou privada no Brasil. Para ele, existe um enorme potencial ainda inexplorado:

Sem dúvida o intercâmbio artístico é algo que faz falta no Brasil. Nosso país tem um nível de excelência artística maravilhoso, não apenas no âmbito da música, mas em todas as artes e ofícios. É um terreno muito fértil pra troca de conhecimentos, pra criação coletiva, pro diálogo e pras conexões entre os saberes.

Existe no Brasil um enorme potencial pra quem investir nesse tipo de empreendimento, tanto para a iniciativa pública quanto a privada. É uma questão de ponto de vista, quem abrir o olho enxerga a multiplicidade de saberes tradicionais e individuais que nosso país possui.


A mídia brasileira e o cenário musical para novos artistas

O papel da mídia de massa brasileira, quanto ao espaço cedido a novos compositores do cenário musical, é um misto de grandes dificuldades por conta de um cenário corrompido. Também o público contribui pelas poucas exigências quanto à qualidade e programação. Diante disso, Felipe ressalta a criatividade como agente propulsor diante de um espaço cada dia mais concorrido.

No caso da mídia brasileira, de modo geral, o dinheiro fala mais alto do que a qualidade musical. E o público, acostumado com isso, não reivindica mais qualidade na programação. É lamentável.

Entretanto, artista é criativo por natureza, e quem não se encaixa na mídia segue encontrando alternativas para alcançar mais público, mas é árduo, nem todos aguentam nadar contra a correnteza…


Contatos e trabalhos de Felipe José:

Email: [email protected]

Fanpage no Facebook: @felipejosemusica

Ouça o disco Circvlar Mvsica na web: //felipejose.bandcamp.com/releases

Website: www.felipejose.com

Soundcloud: //soundcloud.com/felipejoseba


Cello Improvisation.


Projeto Hermeto Pascoal para Crianças de Todas as Idades, uma homenagem aos 80 anos do Hermeto.


Chovendo na Roseira, melhor arranjo pelo BDMG Instrumental (2008).


Lançamento do CD “CIRCVLAR MVSICA”, em Belo Horizonte (2013).


Felipe José, Maurício Ribeiro e Ariel Niñas, “CIRCVLAR MVSICA” em Santiago de Compostela (2014).

Compartilhe para que mais pessoas leiam também.

Uma resposta em “Residência artística: ação inovadora em cultura

  1. Maravilha, @biofolio!
    A música é libertadora e ter contato com artistas assim, com uma pegada social e muito criativa, nos incentiva a rever e a mudar/agregar/compartilhar nossas “miradas”.
    Grande abraço, Felipe José, e muitos sons, cabra da peste!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *