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Notas da cultura brasileira na Dinamarca

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Na Dinamarca há 7 anos, a produtora cultural Claret Soares avalia diversidades culturais, a vida em Copenhague e o trabalho com refugiados


Nos trilhos de Minas

Claret Soares Christensen é jornalista, fotógrafa, produtora cultural e também autora do livro Verdades Temporárias, com nova obra literária em construção.

Consciente do aprendizado entre culturas tão distintas, aguçou também sua sensibilidade pelas artes e pela natureza em suas experiências como imigrante na Dinamarca.

Destacando alguns pontos importantes que tenham influenciado sua carreira, Claret enfatiza que a experiência foi determinante na escolha de se especializar em gestão cultural.

Depois de muitos projetos realizados com suas atividades como assessora de comunicação em Minas Gerais, Brasil, vale destacar sua contribuição relevante à promoção da diversidade e integração cultural.

Nesse sentido, pôde trabalhar com projetos que saíram do papel para se tornarem referência em Belo Horizonte, como o Palco Itália, além de outros festivais nacionais e internacionais em que teve participação ativa.


Língua portuguesa no exterior

Atualmente cursando mestrado em Tradução e Comunicação na Universidade de Copenhague, aliado ao curso de português e estudos brasileiros, Claret aponta o interesse crescente pela língua portuguesa no exterior:

Vivendo no estrangeiro há 7 anos, pude constatar que a língua portuguesa começa a despertar interesse no exterior e vejo a oportunidade de no futuro continuar com o trabalho de tradução, que já desenvolvo e penso em lecionar nesta área.


Artes e integração popular

Avaliando a importância da produção cultural para o fomento às artes e integração popular, Claret afirma que, especialmente em Minas Gerais, houve uma profissionalização a partir do final dos anos 90.

Destacando também as leis de incentivo à cultura, que contribuíram com o impulso das atividades culturais no Brasil, aponta a necessidade de uma reformulação nas suas bases para que esses benefícios sejam expandidos a um público cada vez maior.

Eu acredito que os incentivos públicos precisam ser repensados, já que apoiam principalmente eventos nos grandes centros urbanos da região Sudeste. Mas, não há como se negar a importância do apoio público à produção cultural, que é em última instância é a manifestação da identidade de um povo.

E o Brasil tem a diversidade cultural como valor, temos uma rica tradição cultural tanto popular, quanto erudita.


Diversidade na cultura, segurança e oportunidades

A vida na Dinamarca tem os benefícios de um país com boa distribuição de renda e, como consequência a baixa criminalidade. Provavelmente devido a esses fatores, a população tem um alto grau segurança e de confiança nos governos, além de gozar de um bem-estar social, que infelizmente não temos no Brasil.

A vida no exterior requer que repensemos dos nossos hábitos às nossas carreiras e crenças. As oportunidades de emprego para estrangeiros na Dinamarca se encontram em algumas áreas profissionais, como a área médica ou a de tecnologia.

Há também muitos expats nos serviços de turismo, hotelaria, restaurantes, principalmente na capital. Outra área que absorve bem a mão de obra estrangeira é o setor de construções ou o de serviços sociais. Entretanto, para a área de comunicação não há muitas oportunidades de trabalho longe de Copenhague.

Esta área, além de muito cobiçada, exige o domínio do idioma em um nível que somente os nativos ou as pessoas que imigraram para o país, ainda muito jovens ou crianças, conseguiram alcançar.


Universidade de Copenhague

Eu estou investindo tempo no mestrado, pela oportunidade de me atualizar e aprofundar em áreas que já atuo, como a tradução e a comunicação. O mestrado é ligado ao curso de Português e Estudos Brasileiros, neste caso, eu tenho a vantagem de dominar o idioma e ter conhecimentos históricos, como diferencial.

E é uma honra estudar na Universidade de Copenhague, uma das mais antigas e tradicionais da Europa. Aqui estudaram o filosofo Søren Kierkegaard e o químico Niels Bohr, criador da tabela periódica, para citar poucos.


O que cai do céu é neve

Estar estrangeira exige resiliência, imaginação e disposição para tentar o novo e buscar oportunidades, porque o que cai do céu aqui é neve. Então, eu transformo o meu entorno e enfrento o clima, cultivando orquídeas, escrevendo poesias e fotografando.

Além disto, fui eleita para o Conselho de Integração de Vordingborg em 2013. No conselho, eu coordeno o grupo ecológico, que anualmente promove atividades como o objetivo de dar aos refugiados a oportunidade de interagir com outros e ter enfim, alguma vida social e cultural. Este é um trabalho que me dá muita alegria.

Música do Mundo e Som Brasil

Uma boa surpresa aqui na Dinamarca foi poder ter os programas na Rádio HSR. Eu trabalhei em muitos projetos musicais no Brasil, com assessoria de imprensa, elaboração de projetos musicais e com produção etc. mas, foi aqui que pude desenvolver meus programas.

Em janeiro de 2016, iniciei o Programa Som Brasil, que é mensal, dedicado à música brasileira. O programa tem feito sucesso e é sempre uma honra poder promover a cultura brasileira aqui na Dinamarca. Temos boa música e na maioria inéditas aqui para o público local.

E neste ano, farei também o Programa Verdens Musik (Música do Mundo), que divido com minha colega Jonna Pedersen. A proposta é montar o programa com sugestões de amigos que vivam em diferentes países.

No programa número 1, de janeiro 2017, iniciamos com música japonesa, músicas francesas, cubana e até chinesa. E temos ainda muito o que descobrir nessa viagem musical. Sugestões serão sempre bem-vindas para os próximos programas, basta enviá-las para o email [email protected]


Refugiados

Vez por outra, sou convidada também a fazer palestras sobre integração. Ontem, 1 de fevereiro, fiz uma palestra para refugiados da Syria, Eritreia e Iraque no centro de integração da cidade de Næstved.

É gratificante poder trazer alguma esperança e inspiração para esses jovens, que vem de áreas em guerra e merecem ter uma oportunidade de recomeçar suas vidas. Mas, eles já são vencedores por terem conseguido chegar aqui.


Incentivo cultural: um paralelo entre Brasil e Dinamarca

Sobre o que poderia ser aplicado no Brasil de maneira mais positiva em relação ao cenário já vivenciado na Dinamarca, em termos de incentivo cultural, Claret aponta que a desburocratização como fator relevante no acesso a recursos para a produção cultural.

Além disso, a profissionalização do setor impacta diretamente sobre uma extensa gama de artistas nas várias atividades.

Aqui na Dinamarca o incentivo cultural é feito por meio de fundos públicos e privados específicos para as diferentes áreas culturais.

Os sistemas são menos burocráticos do que no Brasil, o que facilita o acesso do artista aos recursos. Além disto, os municípios oferecem apoio para manutenção e local para os grupos envolvidos com cultura. Isto elimina a figura do captador, que no Brasil domina o controle dos recursos.

Por outro lado, o setor cultural também é muito profissionalizado: atores, músicos e outros artistas precisam ter uma formação oficial para atuar na área.


Entre em contato com Claret Soares Christensen:


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