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Cada um a seu tempo…

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Um artigo sobre o tempo, exigências da modernidade e impressões sobre as relações sociais

por Alexandre do Vale


Uma legenda em negrito

Para todos que atravessaram a década de 1980 e 90 assistindo à chegada da era computacional se aproximando cada vez mais da vida diária, naquele tempo celebravam-se ainda de telegramas de aniversário a mensagens SMS nas recém-chegadas operadoras de celular no Brasil.

A história sempre nos convida a entendermos o presente compreendendo o passado…

É importante a observação de que o frenesi mercadológico a que se abraçou a internet deixa pouco tempo à construção de uma linearidade de pensamento em que se possa criticamente compreender a fundo os efeitos da imersão tecnológica sobre a vida diária.

Tenho às vezes a impressão de que a atualidade esbarra numa legenda em negrito, dizendo que a pressa seja amiga inseparável da perfeição.


O tempo acelerou?

O tempo parece que acelerou, e não há mais lugar para coisas que antes esse mesmo tempo se julgava tão amigo…

Vivemos uma realidade em que muitos pais, por motivos particulares relacionados a trabalho e tempo, não veem seus filhos crescerem como gostariam.

Ao mesmo tempo, a voz da modernidade grita a todo momento que não há mais tempo a se perder em relação ao que quer que seja.

Diante disso, tenho às vezes a impressão de que a atualidade esbarra numa legenda em negrito dizendo que a pressa seja amiga inseparável da perfeição. Caminhar lado a lado com dificuldades diárias, exigindo o máximo de aproveitamento de tempo que nos couber em todos os setores a que somos chamados, é tarefa das mais complexas.

Mas afinal, seria a pressa uma exigência social, fruto das transformações recentes no mundo? Ou exigência do próprio tempo? Ou, quem sabe, a pressa não seja uma convulsão criada por nós mesmos para justificarmos tudo o que já deixamos para trás, a pretexto de não sermos incluídos entre “antiquados”?

Lidamos com muitos rótulos que modificam a aparência de uma escultura que vai se desgastando pelo tempo.

Não podemos nos esquecer de que estamos diariamente escrevendo uma história, sendo autores de um projeto embrionário de revolução tecnológica, no qual o futuro permitirá refletirmos sobre o quanto construímos de avanço, para nós e para os outros, em nossa experiência atual.

Dentro do processo é mais difícil enxergar o todo, mas há sempre tempo de melhorar, de reescrever…


Busca por equilíbrio

O desafio é alcançar o equilíbrio entre as necessidades do progresso, sem deixar de lado o efetivo ético e moral humano.

Uma série televisiva da nossa cultura ocidental, como a aclamada Black Mirror, por exemplo recente, busca expor um retrato obscuro de uma imersão tecnológica acentuada.

Entretanto, não é tão fascinante vislumbrar um quadro apocalíptico das relações sociais quando o choque do pensamento se aplica às diversas áreas construtivas que visam o progresso geral.

Empregos, renda e economia são gerados e mantidos a partir do desenvolvimento das ferramentas da tecnologia. O desafio é alcançar o equilíbrio entre as necessidades do progresso, sem deixar de lado o efetivo ético e moral humano.

O progresso não pede retrocesso, mas o mundo deve estar atento para que essas imersões não se tornem excludentes quanto a seus benefícios, e possam tornar a responsabilidade um fator imperativo em suas aplicações. E dois dos maiores avanços são a ampliação das relações sociais e a reverberação do conhecimento.

Estamos convencidos de que está tudo sob o nosso controle?

Platão afirmava que “dos olhos emanam luzes que apreendem os objetos, como tentáculos”. Estaríamos realmente atentos ao que absorvemos em nossos tentáculos, e convencidos de que está tudo sob o nosso controle?

Dizia Paulinho da Viola, em Sinal fechado:
“Olá, como vai?
Eu vou indo e você, tudo bem?
Tudo bem eu vou indo correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranquilo, quem sabe…”

O convite para assumirmos responsavelmente as rédeas da imersão no futuro bate à nossa porta, a todo instante. Que possamos refletir e agirmos a respeito… o tempo que for possível, cada um a seu tempo.

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