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Modernidade: uma análise em Vertov e Hausmann

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Como os trabalhos de Dziga Vertov e Raoul Hausmann projetaram a ideia de modernidade através da desconstrução de linguagens na arte.

por Alexandre do Vale


O Ritmo cadenciado do olhar

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Raoul Hausmann. ABCD, retrato do artista, 1923.

Nos exemplos acima, em Raoul Hausmann e Dziga Vertov, temos um ritmo cadenciado pelo olhar, repercutindo na profundidade a que somos impelidos a observar a velocidade e a quantidade de informações a serem absorvidas por nós, espectadores e agentes da modernidade.

Nesse sentido, o exercício do olhar conduz a uma inserção no caos constituído pela presença de elementos sumamente cotidianos, recortados e posicionados na frequência determinada pelo artista.

Essa velocidade, naturalmente, é mais perceptível no recorte do filme de Vertov, já que, nele, existe uma realidade dinâmica, consagrada pela essência fílmica de imagens em movimento. Junto à criatividade e intenção de cada obra, podemos observar uma certa dose de equilíbrio poético.

Na obra selecionada de Hausmann, uma nota de dinheiro posicionada na parte inferior esquerda da colagem. Pode ser que exista ali o posicionamento do artista quanto ao valor da arte. Seria monetário simplesmente? Talvez ele quisesse subverter esta ideia da arte pelo dinheiro, fazendo valer o sentido da arte enquanto uma função social questionadora, reverenciando, no caso, elementos diferentes na composição, dando um sentido de reflexão mais amplo aos projetos.


O aspecto documental

O filme de Vertov, no recorte, também possui um aspecto também documental. Querendo ou não, registrar imagens de nosso tempo tem esse aspecto.

Que interessante observar veículos e pessoas daquele tempo, dentro de uma linguagem dinâmica e rítmica acelerada aos olhos de Vertov, como que apontando o funcionamento do olho.

Abrir e fechar os olhos continuamente, trazendo diferentes imagens a cada abertura e captação de informações, mostrando o recorte, a composição na construção de um sentido, fazem do exercício uma reflexão sobre a modernidade.

É como se o vídeo apontasse aquele momento registrado em etapas como algo breve e nada daquilo fosse duradouro (e realmente não é, assim como nossos dias), como se a câmera dissesse: “O hoje é como eu o vejo agora. Mas o tempo corre depressa, e o que eu vejo já é passado”. No meu ponto de vista, ele mostra a paisagem cotidiana como ferramenta à construção desse sentido poético.

Além da composição na busca do sentido da proposta artística, é interessante observarmos a riqueza de interpretações que a montagem induz. Cada elemento da composição comunica uma linguagem, em que a aparente desordem reflete o posicionamento do artista abordando instintivamente a desconstrução através da montagem.


Desconstrução e modernidade

O projeto de Hausmann cai bem no objetivo da desconstrução, onde, segundo SAMARA (2007), o significado do termo “é deformar um espaço racionalmente estruturado, forçando os elementos desse espaço a formar novas relações”.

Ou seja, um projeto que abre portas à criação intuitiva, deformando o espaço limitado da criação, segundo o peso correspondente a cada elemento no todo visual.

Cada tipologia em seu tamanho alterado, cada cor mais quente ou mais fria, pesada ou leve, cada rosto estampado a encarar o espectador, tudo contribui na geração de tanta curiosidade sobre os detalhes em cada inserção de elementos.

A montagem é essa riqueza pictórica repleta de signos que atrai nosso olhar, convidando a observarmos os detalhes e nos fazendo imaginar a função de cada um deles na comunicação implícita de cada obra, marcando a ideia de transitoriedade no espaço compositivo da arte.


A riqueza da manifestação visual

Nos dois exemplos, há não só a riqueza do ponto de vista estrutural (que são os elementos desconstruídos que, juntos, dão sentido às respectivas obras), como também a riqueza pela própria diversidade do olhar que cada artista transfere a nós em sua manifestação visual.

Assim, pelas possibilidades de linguagem levantadas pelo Dadaísmo, vejo que é possível o artista ser a sua própria corrente artística, pela riqueza de trabalhos diferenciados coerentes com a geração moderna.

Podemos ver também quão atuais são as duas obras em análise, já que estamos numa época de tantas transformações e estímulos provocados pela enxurrada tecnológica e de informações que são reflexos da modernidade em constante erupção.

O filme de Vertov é ferramenta a se ampliar esta visão.

Hoje temos celulares que cada vez mais incorporam recursos de computadores, softwares que oferecem efeitos visuais avançadíssimos que não impõem mais limitações à imaginação, TVs e cinema 3D, e muito mais!

Vertov e Hausmann, concluindo, olhavam à frente do seu tempo, sendo precursores de uma linguagem que hoje tem tudo a ver com nossa época: a riqueza do estímulo visual firmada pela riqueza de fragmentos na construção de sentidos, ambos dentro de uma montagem peculiar a cada experiência transformada por recortes, colagens e pelo próprio filme.


Referências

SAMARA, Timothy. Grid: construção e desconstrução. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

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