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Design e indústria: um roteiro da forma à função

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Como o design se amplificou diante das transformações sociais emergentes a partir do século XX


Uma revolução mais do que industrial

A história humana sempre se viu ligada aos seus próprios avanços no campo tecnológico, de forma que suas conquistas pudessem abrir campo a interpretações sólidas no nível cultural. Buscar entender a história é ponto crucial para reflexões em qualquer gênero. No campo das artes, se por um lado formas tradicionais de representação visual, como a pintura, por exemplo, receberam desafios pelo surgimento de novos aparatos como a fotografia e o cinema, por outro, o entendimento da arte como ferramenta intercessora no plano projetista de cunho industrial se ampliou de forma considerável, justamente pela diversificação a que se viu exposta em suas possibilidades de representação e função.

No período que se seguiu à revolução industrial, a humanidade pouco a pouco foi capaz de prover suas necessidades emergentes, na medida em que a evolução da forma e da função de produtos e máquinas garantiu novas maneiras de se viver a modernidade.

De igual modo, os responsáveis pela introdução de novos mercados se viram em constantes transformações, apontando caminhos que atualmente podemos identificar de forma bastante clara no campo profissional do designer, como gerenciador de soluções capazes de atender as demandas de consumo e necessidades da indústria. Nesse ínterim, Heskett (2008) fala da necessidade dos fabricantes em desenvolver produtos com novos formatos, a fim de atrair o interesse de uma classe média abastada, tendo em vista uma concorrência em franca expansão. Gradativamente, considerou-se o designer como agente diferenciador de padrões estéticos pré-definidos no campo de objetos de uso, dentro de um limiar próximo a questões artísticas, ainda que presentes as suas especificidades de atuação. Aqui, podemos observar a incisiva colocação de Bernhard Bürdek (2006, p.64) identificando zonas de interseção entre design, artesanato e arte:

A separação entre a arte e o artesanato, assim como entre o design e a arte e artesanato, esteve definida claramente por mais de um século. Assim como o designer nos anos 80 se dirigiu à arte, muitos artistas há muito se dedicaram a retrabalhar objetos de uso. Especialmente móveis e objetos domésticos foram assunto preferido de reflexão e de produção artística.


Forma e funcionalidade

A arte empregada em produtos passa a ser discutida e analisada em sua amplitude, possibilitando abordagens teóricas e práticas antes pouco experimentadas. Questões como forma e funcionalidade, e suas influências na sociedade, puderam ser discutidas no campo da estética industrial, e se projetaram, por exemplo, como bandeiras de escolas como a Bauhaus na Alemanha da década de 1920, se espalhando por toda a Europa e influenciando gerações de profissionais de diversos campos de atuação ao longo de décadas.

Essa relação íntima do homem com a indústria viria gradativamente a se aprimorar, ganhando vulto a cada nova descoberta científica e comportamental da sociedade que a impulsionava. A novidade da indústria de consumo e a produção em larga escala, que se emolduravam no cotidiano das pessoas, principalmente nas sociedades européias (a princípio) e, posteriormente, as americanas, fez com que o homem passasse a representar sua realidade no fazer artístico de uma forma bem diversa que nos séculos anteriores, como afirma John Heskett (2008, p.28):

Se a Europa estimulou um aprofundamento da teoria do design que acabou por salientar o papel da arte, nos Estados Unidos uma nova escala de organização e tecnologia industrial se desenvolveu a partir da década de 1920 e alterou profundamente as práticas do design. Por meio da produção em massa alicerçada em consideráveis investimentos de capital, empresas gigantes criaram uma onda de produtos inovadores que mudaram fundamentalmente todos os aspectos da vida e da cultura americanas, com reflexos em todo o mundo. Para estimular o mercado, os produtos precisavam sofrer constantes mudanças, acompanhadas de campanhas de publicidade em massa que encorajassem os consumidores a comprar por impulso.


Nessa busca por acomodar novos produtos junto a demandas diversas de consumo, ratificando cada vez mais a interação entre o homem e a indústria, temos o design de produtos ganhando força como símbolo. Desde um processo de transformação social a hábitos de vida, BerndLöbach (2001, p.97), por exemplo, fala das dimensões simbólicas inerentes à estética dos produtos, englobando suas funções e seu alcance comportamental no conjunto das massas, sendo a percepção desses valores o fator responsável pela identificação de preferências e status de vida:

Os nossos produtos industriais dotados de funções práticas possuem de modo inerente, (…) dimensões simbólicas, induzidas em grande parte pelas características estéticas da configuração do produto. O valor dos produtos industriais com função simbólica não fica claro, mas evidenciam a posição dos homens no ordenamento social. Em uma sociedade que se tornou anônima, estes símbolos ordenam as relações entre os homens, são os signos de conduta.


Como é possível perceber, na medida em que evoluíram os processos de fabricação de produtos, o design se apoderou do progresso industrial e se diversificou, de acordo com as necessidades em se atender diferentes demandas das classes sociais. Em sintonia com os estudos e a absorção do valor artístico dos produtos a que se viu imerso, o desenvolvimento da indústria foi uma grande oportunidade para que expoentes de vanguardas artísticas expusessem novos conceitos, novas ideologias, que por sua vez foram capazes de dialogar com a indústria e, consequentemente, com a grande massa consumidora.

Desta forma, o design ganhou um espaço amplo de execução, gerando um conteúdo vasto de linguagens que ao longo de décadas se viu oprimida pela falta de projeção ao público comum, de uma forma generalizada. O que de fato propiciou o avanço da arte, no sentido de se fazer presente a olhares despercebidos, foi a presença da indústria na dispersão de produtos voltados a camadas de interesses específicos, tornando a tecnologia, em seus variados estigmas, e a publicidade como força motriz, os fatores propulsores de divulgação de ideias e sentidos para a arte moderna. Sem a indústria, sem a máquina a auxiliá-lo, o homem não teria se reinventado na cultura a que se propôs agente ativo e ao mesmo tempo passivo em suas próprias ações no tempo.

E nesse contexto tão atual, cabe à humanidade a reflexão sobre a responsabilidade de se tornar uma engrenagem do progresso sem, contudo, desvirtuar seu caminho tratando a si mesma como máquina.

Dali Atomicus, por Philippe Halsman (1948)

Dali Atomicus, por Philippe Halsman (1948) – Saiba mais sobre a fotografia original disponível em Tecnoartnews


Referências:
– BÜRDEK, Bernhard E. Design: História, Teoria e Prática do Design de Produtos. Tradução de Freddy Van Camp. São Paulo: Edgard Blücher, 2006.
– HESKETT, John. Design. Tradução de Márcia Leme. São Paulo: Ática, 2008.
– LÖBACH, Bernd. Design industrial: base para a configuração dos produtos industriais. Tradução de Freddy Van Camp. São Paulo: Edgard Blücher, 2001.
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